Suor by Jorge Amado

Suor by Jorge Amado

Author:Jorge Amado [Amado, Jorge]
Language: eng
Format: epub
Published: 2014-04-02T04:00:00+00:00


Crise

1

Largou o violino em cima da cama. O caderno de sambas caiu no chão, dobrando as folhas. ele não se moveu. Que lhe importava? Chegou ao buraco do quarto e ficou olhando os telhados negros da cidade anciã. As ladeiras eram os braços da cidade esticados para o céu. Ali embaixo, no centro da ladeira empedrada, ficava o pelourinho, montado pelos colonizadores portugueses. Hoje, o pelourinho desaparecera, mas a ladeira que lhe tomara o nome era com um pelourinho também. Todos os que ali viviam passavam vida apertada, sem pão, sem trabalho. Lembrou-se de Álvaro Lima. O agitador lhe dissera que as coisas não melhorariam enquanto os operários não dominassem o país. Ouvira os seus planos de greve, de comícios. Um grupo de homens sujos e suados subia a ladeira. Pela primeira vez o violinista compreendeu o que seria a revolta daqueles homens explorados. No dia em que eles descobrissem...

Abandonou a janelinha e aproximou-se da cama. A noite caía e ele não se lembrou de acender a vela. Tirou o violino da caixa, passou os dedos finos pelas cordas, articulando um som que bateu nos seus ouvidos como a queixa de homens suados. Andou até o espelho, alisou o cabelo. Fitou o retrato que pendia sobre o espelho. Com o crepúsculo, mal visível, sua mãe parecia mais velha, mais acabada, desanimada de tudo. Recordou-se das viagens gloriosas que sua imaginação fazia diante do espelho e do retrato... Afastou os demais pensamentos e tentou viajar. Paris... Por que seria que os jornais pouco falavam dele? Berlim... As moças não vinham pedir autógrafos. Viena... A multidão não o esperava mais... Por que seria? A multidão estaria empenhada numa revolução? A sua excursão não alcançou sucesso. Voltou para a realidade de coração magoado, com a tristeza dos velhos artistas esquecidos pelo público. O retrato de sua mãe escondia-se nas trevas. Um cheiro de mofo invadia o quarto, com a noite. A lata de brilhantina estava vazia.

Andou pelo quarto sem querer pensar. Abriu a porta, marchou em direção à escada, voltou. A tuberculosa tossiu no quarto dos fundos. Era uma tosse fina, quase sem forças. Vera saiu do quarto correndo, veio encher um copo de água. O violinista cumprimentou-a. Ela respondeu coisas ininteligíveis:

— Minha irmã... minha irmã...

— Hein?

Mas ela já regressava, porque a tuberculosa tomara a tos sir, fazendo silenciar a máquina do quarto de dona Risoleta. O violinista ouviu a voz de Julieta.

— Coitada! Está nas últimas.

Ele voltou para o silêncio pesado do quarto. Agora ouvia os passos dos homens que subiam. Pegou o violino e acariciou-o com os dedos. Novamente um som de queixa se escapou. Só então ele recordou o fato daquela tarde. O gerente do Café-Madri o chamara para dizer que, devido à crise, a casa tinha resolvido dispensar um violinista. Como o outro, apesar de não tocar tão bem, estava há mais tempo no Café, ele fora sacrificado. Fizera-lhe apressadamente as contas, passara-lhe quarenta e oito mil e quinhentos, seu saldo, batera-lhe com a mão nas costas e lhe dissera, em tom de consolação:

— Você arranja trabalho com facilidade, rapaz.



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